A.B.A.P.O.R.U. (Agenciamento Brasileiro Antropofágico da Política de Orientação Revolucionária Utópica). O agenciamento coletivo pensado por Deleuze e Guattari é experimentado no contexto brasileiro ao modo antropofágico de Oswald de Andrade como pensamento articulador de uma política revolucionária que faz da potência crítica e criativa da imaginação utópica um poder de influenciar os rumos das relações de força no jogo estratégico entre os poderes que se exercem na realidade social do país.
quinta-feira, 30 de abril de 2020
PELA VIDA, PELA DEMOCRACIA, DIANTE DO COVID, CHEGA DE COVARDIA! (Ivan Maia, Poeta e Professor da UFBA)
A saída de Sérgio Moro do governo Bolsonaro, após a disputa pela nomeação do chefe da Polícia Federal, na qual ambos tentaram intervir para fazê-la servir a interesses próprios, parece ser o momento de implosão do desgoverno que está conduzindo o país ao caos social, a partir da necropolítica neofascista e ultraliberal, que repassa a maior parte da verba pública que se destina ao enfrentamento da epidemia, em seus aspectos críticos (complementares) de saúde pública e economia, para bancos, enquanto desmantela serviços públicos e ameaça as instituições da República.
Ambos, Moro e Bolsonaro, são criminosos cujos crimes estão sendo investigados em inquérito aberto no STF pelo Ministro Celso de Mello, decano da Suprema Corte, que já deu recados a Bolsonaro sobre o caráter inconstitucional de suas atuações autoritárias, assim como intimou o Presidente da Câmara, Rodrigo Maia, para examinar os pedidos de impeachment protocolados, que já passam de 30, após suposta omissão deste quanto a esta responsabilidade.
Moro perseguiu o ex-presidente Lula, grampeando seu telefone, com condução coercitiva, orientando e colaborando com os procuradores que o acusavam, condenando-o sem provas, baseando-se em delação forçada, prendendo-o e tirando-o da eleição que ganharia no primeiro turno. Moro agiu ilegalmente desde a escuta não autorizada de Dilma, o partidarismo/parcialidade no julgamento de Lula, a prisão antes do trânsito em julgado e o vazamento de delações para a imprensa, que favoreceu o candidato Bolsonaro.
Depois Moro deixou de ser juiz para tornar-se superministro, como recompensa por ter favorecido a eleição do fascista, e permaneceu conivente e cúmplice de vários crimes de corrupção do último partido do presidente, deste, de sua família, da milícia ligada a ela e de outros membros do governo, no qual Moro não conseguiu o que mais quis, quanto ao pacote anti-crime: a tentativa de legalizar a violência policial arbitrária, como impunidade para policiais matarem “supostos” criminosos, favorecendo práticas de extermínio, que já vêm vitimando, em sua maioria, jovens negros.
Após a redução do superministro Moro a um mero ministro derrotado no Congresso e desprestigiado pelo tirano, e depois da conivência do ex-juiz, “herói do anti-petismo”, com os ataques de Bolsonaro aos outros poderes da República, ele deixa o desgoverno acusando seu ex-chefe de fazer o que ele já fazia como juiz: intervir na Polícia Federal, segundo os mesquinhos interesses próprios, para oprimir adversários tratados como inimigos e ganhar prestígio político.
Agora que Bolsonaro está sendo Julgado no STF, se desgastou enfrentando seu ex-ministro da saúde Luis Henrique Mandetta (quanto à estratégia de combate à epidemia), e está prestes a sofrer impeachment, Moro quer sair como herói?!...Crimes, omissões, cumplicidade com bandidos, o que o torna herói?
Se ambos estão sujos, Moro e Bolsonaro, quem é que está realmente contra a corrupção? Mora na filosofia e na memória: há mais de ano, quando começou “namoro” com Bolsonaro, Moro vem desmoronando e está desmoralizado! Agora Moro é um mero pária...Assistimos ao desmoronamento do herói superministro desmoralizado pelo mito miliciano paranóico negacionista que desgoverna o país em meio à pandemia, e que está encurralado pela Suprema Corte, sem apoio do Congresso, em conflito com quase todos os Governadores e com a imprensa em geral, com popularidade em queda e alta reprovação da sociedade, além da má fama na imprensa mundial, criticado pela ONU e pela OMS, por sua política “irresponsável” diante da pandemia.
O processo de acovardamento das forças democráticas brasileiras que ocorreu nos últimos anos de golpes contra Dilma, Lula, o PT, militantes de partidos de esquerda e movimentos sociais, indígenas e quilombolas, e que agora ameaça as instituições democráticas da República, passou pela deposição de uma presidente inocente, pela condenação e prisão de um ex-presidente sem provas, pelo assassinato de uma vereadora que combatia as milícias, pela eleição de um fascista que exalta ditadura e torturador, pela conivência com a fraude de uma eleição por meio de fake news, pela nomeação de corruptos como ministros, pela entrega do patrimônio público e renúncia à soberania nacional, pela conivência com crimes de amigos milicianos da família do presidente, pela condescendência com a participação do presidente em manifestações favoráveis à ditadura e pelo fechamento do Congresso e da Suprema Corte, e mais recentemente, pela promoção do caos na saúde pública com propostas que favorecem a propagação da epidemia e a mortandade da população, sobretudo a parcela mais vulnerável.
Diante disso, e de uma pesquisa de opinião recente, segundo a qual a maioria dos brasileiros está a favor da saída de Bolsonaro, há o risco de que ele e sua família tentem mobilizar milicianos espalhados pelo país para imporem uma saída autoritária do caos social que estão promovendo.
Então: Basta de covardia! Fora Bolsonaro! Pela vida, pela democracia!
DIREITO À LIBERDADE EM MEIO À PANDEMIA (Simone Borges, Estudante de Filosofia da UNEB)
O vírus COVID-19 surge na China ao final de 2019. Somos informados que a nova doença é facilmente transmitida, possui sintomas semelhantes aos de uma gripe e que devemos ter mais cuidados com os idosos. Rapidamente o número de óbitos ultrapassa a casa dos milhares. Em 11 de março de 2020, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declara que o evento se trata de uma pandemia. No Brasil, o pânico toma conta da população e governadores e prefeitos adotam medidas emergenciais para evitar que aconteça aqui o mesmo ocorrido na Itália, Espanha e Estados Unidos. Apesar disso, o presidente Jair Bolsonaro declara que devemos proceder em isolamento vertical, ou seja, de apenas um grupo de pessoas, os idosos, no caso, e não de toda a população, conforme as recomendações da OMS, de médicos e de cientistas.
Líderes neoliberais como Jair Bolsonaro e Donald Trump demonstram falta de preocupação com povos pobres (e pretos!). No Brasil e nos Estados Unidos, as populações negras apresentam maior vulnerabilidade em relação ao COVID-19 se comparadas à população branca. As questões socioeconômicas são fatores determinantes no acesso aos recursos da saúde. Os bairros mais pobres, com mais problemas de saneamento básico, são habitados predominantemente por negros.
Presenciamos a intensificação do darwinismo social. Brasileiros favelados, acomodados em casas minúsculas, com problemas recorrentes de falta de água, transmitem o vírus, uns aos outros, rapidamente. Gente que está condenada à morte. E outros pretos pobres que estão relegados a trabalhos análogos à escravidão, a exemplo dos entregadores de comida, os “bikeeats” e “motofoods” das metrópoles, que chegam a trabalhar mais de 13 horas diárias por um salário que não alcança o mínimo.
Experienciamos uma democracia que não é produtora de liberdade, pois concede liberdades e direitos para alguns, enquanto nega para outros. Seu modus operandi não é tão distinto do da ditadura militar. É uma democracia capitalista em que as vidas pobres e pretas só importam enquanto subjugadas e mantidas estressadas e sujeitadas a altos índices de mortalidade. A necropolítica dos empresários, que fazem carreatas em carros de luxo, exigindo que o proletariado volte a produzir riquezas, define quem deve viver e quem pode morrer.
O governo federal demonstra seu descaso na demora em aprovar e iniciar pagamento (para parte da população) do Auxílio Emergencial de seiscentos reais, valor insuficiente para atender às necessidades básicas de uma família. Em caminho inverso, assistimos demonstrações de solidariedade através de confecção e distribuição voluntária de máscaras caseiras; de doações de cestas básicas, de produtos de higiene e limpeza; de auxílio de psicólogos e médicos, por telefone; de saraus promovidos por cantores famosos e anônimos, a partir de suas varandas.
O capitalismo não nos deixa livres para decidir ficar em casa. Ser livre, em tempos de pandemia, é ter direito a uma casa com água nas torneiras todos os dias e ter assegurado pelo Estado o direito a recursos para sobrevivência; abrigos para pessoas em situação de rua; transporte público de qualidade e sem aglomerações; máscaras, produtos de higiene e limpeza e equipamentos de proteção individual.
A liberdade é uma luta constante, como afirma Angela Davis. Constante é nossa luta por vida saudável e plenamente realizada, livre de violência, opressão e exploração, com direito a justiça social, saúde, educação, igualdade de oportunidades entre gênero e raça, abolição de todas as formas de escravidão.
Só conseguimos ser livres coletivamente. Este não é projeto egoísta ou individualista. O caminho rumo à liberdade deve incluir a solidariedade. E a solidariedade inclui a nossa capacidade de empatia e de reconhecimento da humanidade do outro no outro. Liberdade real é aquela estendida a todas as pessoas, irrestritamente. Estamos longe de poder vivenciá-la plenamente. No que depende dos líderes políticos nunca a alcançaremos. Nenhuma mudança social parte voluntariamente daqueles que lideram. É sempre por meio da organização e mobilização de demonstrações públicas de insatisfação. Devemos nos dispor a abraçar essa longa jornada rumo à liberdade, numa busca coletiva por uma democracia pautada na igualdade e na justiça. Certamente, se tivermos organização social voltada para liberdade das pessoas, a superação de pandemias e misérias será muito mais fácil.
quarta-feira, 15 de abril de 2020
NEGACIONISMO, NEOFASCISMO E PANDEMIA (Ivan Maia, Poeta e Professor da UFBA)
Há um comportamento que tem se manifestado na sociedade brasileira, e em geral não é percebido por quem o adota, mas que aparece em múltiplas formas. Tem sido chamado de negacionismo uma postura diante de diferentes contextos existenciais, nos quais ocorre, por parte de indivíduos, grupos ou instituições, uma negação de aspectos da realidade, cuja ocorrência é contestada, ocultada, distorcida, atribuída a outros como invenção fictícia, falseamento ou simplesmente mentira.
Este comportamento tem tido forte influência no campo da política, de modo a gerar decisões relativas a políticas públicas de governos, leis do parlamento e sentenças jurídicas. Sobretudo, tem se manifestado por parte de agentes sociais de tendência reacionária, mas também pode aparecer como posturas adotadas por atores do campo democrático.
Por parte dos indivíduos reacionários, o negacionismo se mostra em vários campos da experiência humana, como uma postura irracional, anti-científica, apolítica, necropolítica, farisaica, fundamentalista, entre outras formas. Este negacionismo reacionário tem aparecido como parte do que tem sido compreendido como Neofascismo, uma nova forma do fascismo que historicamente já assumiu as formas do Fascismo italiano de Mussolini e do Nazismo alemão de Hitler.
Na contemporaneidade, o Neofascismo brasileiro liderado por Bolsonaro manifesta seu negacionismo não apenas negando veracidade às versões científicas sobre evolução biológica, aquecimento global, desmatamento, história da escravidão e da ditadura militar. Como nesses casos, sem fundamentação teórica consistente, o negacionismo bolsonarista chega a colocar em risco a vida de milhões de brasileiros diante da pandemia do coronavírus, negando a necessidade e eficácia da política de saúde pública do distanciamento social, como principal medida preventiva no enfrentamento da epidemia, segundo recomendação da Organização Mundial de Saúde, que pode evitar a morte de mais de um milhão de pessoas, segundo estudo recente da Imperial College, de Londres.
Este negacionismo reacionário contemporâneo, herdeiro daquele que vem negando a humanidade dos povos negros da África e indígenas da América, desde o início da colonização, também se identifica com posições apolíticas, de negação da política, supondo-a mero jogo de interesses escusos, desqualificando toda forma de enfrentamento democrático no jogo de forças políticas nas relações de poder que permeiam a vida em sociedade, enquanto mascara sua necropolítica de produção de mortes, de trabalhadores expostos à contaminação epidêmica, de cidadãos expostos à violência da criminalidade, alimentada pela fome dos que ficam sem renda mínima para sobrevivência, e de parte da população que compõe o grupo de risco (sobretudo idosos), que são expostos à contaminação por falta de distanciamento social.
O caráter necropolítico do negacionismo neofascista brasileiro se apresenta de forma emblemática por meio do presidente irracionalmente mitificado e sua personalidade sociopata, marcada por comportamento agressivo, que incita a violência, o armamentismo, a brutalidade policial, a perseguição política, e discurso paranóico delirante de ameaça de ditadura comunista. Em parte, isso é resultante do ressentimento da elite econômica que deixou de ganhar (para aumentar seus privilégios) recursos destinados por governos progressistas a políticas públicas sociais, após anos de redemocratização que desconstruíram, apenas parcialmente, o autoritarismo da ditadura militar, de onde provem a parcela recalcada da agressividade miliciana neofascista, principal componente da sociopatia bolsonarista.
O negacionismo neofascista brasileiro é parte daquele disseminado no mundo atual, que levou a equívocos de atitudes em relação à epidemia, como o que vitimou o economista Rehman Shukr, ligado ao FMI, que defendia a prioridade da economia sobre a saúde pública, ou o que acometeu o ministro da saúde israelense Yaakov Litzman, o qual contaminou a comunidade religiosa que permaneceu frequentando, e ainda o primeiro ministro inglês Boris Johnson, que havia feito campanha para as pessoas se exporem ao contágio e desenvolverem imunidade, e acabou internado na UTI de um hospital.
Finalmente, é necessário que os democratas permaneçam alertas para o perigo do neofascismo bolsonarista, e não deneguem este movimento político como sendo apenas mais uma força política do jogo democrático. É preciso compreender o caráter niilista, de negação da vida, do negacionismo contemporâneo, no jogo político do discurso, com sua tática de disseminação de fake news, para gerar a coragem trágica de ser realista na compreensão do mundo e afirmar ativamente a vida, aceitando que a realidade seja como vem a ser, sem se resignar ao status quo: absorver antropofagicamente aquilo que na realidade aumenta nossa potência de criar possibilidades de vida na luta política, pela praxis desconstrutiva da necropolítica do capitalismo neoliberal, particularmente em sua conjunção com o neofascismo.
terça-feira, 7 de abril de 2020
Ponto de Encontro - Os corpos para além da necropolítica (Luciana Lucena, artista-pesquisadora PPGAC/UNIRIO)
Antes mesmo de conhecer Seu Gomes, já o avistava da minha janela. Pontualmente às oito da manhã, ele chegava na fruteria da esquina e escolhia as frutas frescas da estação. Trocamos dois dedos de prosa no dia em que foi decretado o Estado de Emergência aqui em Portugal. Desde lá, não o vejo mais passar com sua sacolinha xadrez a tiracolo. Até as gaivotas que costumavam rondar o comércio, agora apontam na direção do isolamento geral.
De frente à minha janela, agora mais monótona, lembrei de uma brincadeira de infância: Estamos isolados para não ficarmos doentes ou estamos doentes e, por isso, isolados? Tostines!
Nossos corpos reclusos refletem a biopolítica de Estados autoritários que, ao longo do tempo, do acirramento de suas fronteiras e de uma necropolítica perversa definem quem deve morrer e quem deve viver.
O cientista político e colunista português, do jornal Folha de São Paulo, João Pereira Coutinho, questionado em entrevista ao podcast Café da manhã: “Como o autoritarismo age numa pandemia”(02/04/2020), sobre o que líderes autoritários precisam para crescer e expandir seus projetos de poder, responde que necessitam de autoridade e de oportunidade. Um exemplo recente é a Hungria, cujo primeiro ministro, Viktor Orban, conseguiu aprovar um estado de emergência sem limite de vigência, com texto que lhe amplia poderes, podendo suspender sessões parlamentares, eleições e até decretar prisão para quem divulgar informações consideradas incorretas pelo governo. Com o pretexto da pandemia, governos ultranacionalistas têm a oportunidade perfeita para legitimar o excesso de controle sobre as liberdades que cidadãos incautos lhes oferecem cheios de confiança.
Estou a falar da Europa, porque diz o ditado também português, que “Em terra de sapos, de cócoras com eles”. Quem sabe seja menos doloroso cutucar a ferida dos outros(?) - Dos que estão do outro lado da porta, do outro lado da janela, do outro lado da minha máscara, já escassa na farmácia. Esses, do outro lado da minha pele. O silêncio quarentenal das ruas, permite-me ouvir o panelaço generalizado que se opõe à fala criminosa dirigida à população, para que siga-se a vida, já que “brasileiro deveria ser estudado por sua capacidade de pular no esgoto sem que nada lhe aconteça”. No caso do governo brasileiro, seguindo a mesma linha dos governos americano ou britânico, quando são feitas alegações de que o trabalho e a economia do país não podem parar, o que se percebe não é uma simples irresponsabilidade irresignada, mas a escolha pela morte. Não é legítimo que um governante opte entre a economia ou a saúde do seu povo. Esta divisão existe enquanto possíveis pastas administrativas, não como opções a serem descartadas. Trata-se de direitos sociais, regidos pelo Princípio da Dignidade da Pessoa Humana, sendo, portanto, dever de um chefe de Estado preservá-los igualmente.
O isolamento é um convite para percebermos as formas de poder, de modo que não inviabilizem nossos corpos. Em artigo recente, o filósofo espanhol Paul B. Preciado (2020), analisando a situação contemporânea das biopolíticas a partir do Covid-19, sugere que “El sujeto del technopatriarcado neoliberal que la covid-19 fabrica no tiene piel, es intocable, no tiene manos. (...) No tiene lábios, no tiene lengua”. Ou administramos nossas distâncias-proximidades ou delegamos, cada vez mais, o comando dos nossos corpos a governos autoritários, que só precisam de oportunidade para transformar estado de exceção em normalidade.
Conviver, do latim convivere, significa adaptar-se a uma nova situação. Então, na condição de artista das artes da presença, penso neste isolamento enquanto lugar de relação com este outro, esconjurado do meu país, do meu corpo, do meu quadrado. Este outro, isolado do outro lado da cidade, do mapa, do mundo. Se no pós-guerra, o modelo cotidiano, citadino, amparado na cultura predominantemente urbana, cria uma arte relacional, não é porque estamos isolados que isto se perde. Continuamos neste estado de relação. Fomos isolados pela nossa patologia coletiva. E parafraseando Bourriaud (2009): “...a arte sempre foi relacional, ou seja, fator de socialidade e fundadora do diálogo”.
Então, sem querer romantizar a falta de recursos, achando que se instaura agora uma nova era em que artistas produzirão as grandes obras primas do confinamento, sigamos invocando o diálogo com as fronteiras de todos os nossos corpos reclusos.
Quando me despedi de Seu Gomes, ele disse ter uma vontade enorme de viajar, de conhecer o Brasil em especial, mas que raramente ia além da esquina da própria casa.
segunda-feira, 6 de abril de 2020
“Pântano de perversidade e cinismo” (Átila de Menezes Lima, Professor da UNIVASF)
Essas foram palavras de um camarada em um desabafo e achei-as perfeitas para demonstrar a hipocrisia, o ódio, a falta de solidariedade para com as vidas expressas pela nossa burguesia e frações de classes dominantes. O pronunciamento do “messias” salvador e a propaganda anunciada nos meios de comunicação de “O Brasil não pode parar”, assim como a defesa de grande parte do empresariado nacional e de setores “religiosos” contra a quarentena e a favor do retorno ao trabalho, com discursos de que a economia vai quebrar, que desemprego gera pobreza e miséria etc, dão náuseas e ocultam processos históricos maiores.
A primeira questão é que somos um país com desigualdades sociais brutais. Segundo a ONU (2019) fomos a 2ª maior concentração de renda do planeta em 2019. Dados da OXFAM (2017) mostram que seis brasileiros têm a riqueza equivalente ao patrimônio dos 100 milhões mais pobres e que os 5% mais ricos detêm a mesma fatia de renda dos demais 95%. Nossos problemas sociais são seculares e persistem na atualidade. Veja a miséria, fato brutal e crônico, gerou e gera o luxo e riqueza dos poderosos de nossa “nação”. Tem-se muita gente na informalidade, isso demonstra grandes problemas de uma economia dependente de uma lógica econômica que inevitavelmente gera miséria. Quando políticas conciliatórias e de “redução da pobreza” foram sendo implementadas, os mesmos empresários que estão falando em miséria foram os primeiros a serem contra.
Segundo: a economia brasileira está em crise faz tempo e vem implementando uma série de políticas de austeridade como: a “reforma” trabalhista, a EC 95 (Teto de Gastos), assim como a “reforma da previdência” e demais atos adotados pelo atual presidente do país. Sabe quem vem se beneficiando dessas políticas? O sistema financeiro (bancos, fundos de pensões), grande empresariado etc... Em 2019 os lucros dos bancos cresceram 18% e somaram R$ 81,5 bilhões. Nosso maior problema chama-se “dívida pública” e ela é comprada pelos bancos. Esses estão tendo lucros altíssimos, vem quebrando a economia do país e as políticas na crise são para salvar os mesmos. Não vemos nenhuma atitude para suspender o pagamento da “dívida”. Conforme Fattorelli no ano de 2018 e 2019, respectivamente, pagamos de juros e amortização da dívida o equivalente a R$ 1.065.725.301.673,00 e 1.037.563.709.336,00 correspondendo a 40,66% e 38,27% de nossos gastos. Esses trilhões corresponderam a 2,9 e 2,8 bilhões por dia aos bancos. Se compararmos com o que é gasto com saúde e educação veremos que as quantias são vergonhosas. Quando observamos o quanto está sendo liberado para o combate ao coronavírus e o que foi dado em ajuda aos bancos vemos que a prioridade do governo é aos últimos. Ao invés de jogar os trabalhadores em mais miséria e para a possibilidade de contágios, deveríamos não pagar a dívida pública ao capital financeiro e fazer políticas de benefícios sociais. Dinheiro tem e de sobra.
Terceiro, temos um problema crônico de não taxação das grandes fortunas, o perdão das dívidas dos bancos, do agronegócio, dos ruralistas e de outros setores da economia, sem falar nas sonegações de impostos e nas atividades ilegais que reinam num submundo obscuro e que ninguém fala. Agora parte dos mais ricos do Brasil vem falar que estão preocupados com a miséria no país? Isso não passa de cinismo.
Por fim, quem gera riqueza social não são os empresários, mas sim a exploração social da força de trabalho dos trabalhadores. Os empresários sabem disso e maximizam suas fontes de lucros em cima de nossa exploração. Essa é uma questão importante para entendermos as “razões” da vida econômica, pois o capitalismo necessita ter sempre uma margem de lucro crescente. É justamente do nosso trabalho que são geradas as riquezas dos patrões através do tempo de trabalho não pago (também conhecido como mais-valia). Então quanto mais tempo trabalhando e menor o salário, maior a riqueza do patrão. É por isso que eles vivem nos dando outras funções de trabalho para além das nossas, esticando nossas horas no trabalho etc...
Com o excedente de riquezas, os patrões aplicam em mais tecnologias e máquinas. Essas diminuem vários postos de trabalho, criando desemprego, subemprego, trabalhadores precarizados de aplicativos etc. Uma grande massa de trabalhadores desempregados e com fome se submetem a todo tipo de exploração. Isso contribui para a precarização, subcontratação, rebaixamento de salários, aumentando os lucros dos patrões. A preocupação dos empresários e do grande capital no momento não é com desemprego, com miséria, etc. Estão preocupados é com a taxa de lucro deles que está caindo. Com o uso das riquezas e dinheiro em caixa que o país possui, que segundo Fattoreli (2019) eram cerca de 4 trilhões, e/ou a suspensão do pagamento dos juros da dívida pública dava pra enfrentar essa crise e investir em saúde pública, ciência, educação. Isso depende de vontade política e de luta de classes. Organizemo-nos! Somente a luta transforma.
quarta-feira, 1 de abril de 2020
Pela Vida, Contra a Necropolítica, Ditadura Nunca Mais! (Ivan Maia, Poeta eProfessor da UFBA)
Abaporu, em Tupi-Guarani, o antropófago que devora toda forma de pensar, sentir, agir, capaz de aumentar nossa potência de vida de modo dadivoso.
Assim, nesse dia em que se completa 56 anos do golpe militar que instalou a ditadura cívico-militar no Brasil por longos 21 anos, e em meio à epidemia que tomou conta do mundo, estamos num momento grave, decisivo, e a preocupação econômica com ganhos dos ricos é a maior ameaça à estratégia epidemiológica de enfrentamento da pandemia, para evitar o caos nos serviços de saúde, com superlotação de UTIs. A preocupação econômica com a garantia de condições para os trabalhadores (desempregados, empregados ou trabalhadores informais) e pequenos empresários ficarem em casa se tornou muito relevante agora. O desgoverno brasileiro não consegue seguir com um mínimo de sensatez a racionalidade daqueles que idolatra, como Trump, que mudou sua estratégia, antes irresponsavelmente negacionista, e agora, como todos os grandes países, busca dar ao seu povo condições de ficar em casa, como principal medida para conter o avanço da epidemia.
Bolsonaro, mesmo sendo porta-voz de uma racionalidade capitalista necropolítica, que Achille Mbembe compreendeu, a partir de Michel Foucault, como exercicio de um poder soberano de fazer morrer, que se conjuga com a biopolitica do poder governamental de regulação e normalização da vida da população governada, assim como se conjuga com o poder disciplinar que exerce controle institucional sobre os corpos dos indivíduos, ele tem obsessão pela ditadura, defende tortura, e é movido por pulsões perversas de um sadismo sociopata, com delírios fundamentalistas, terraplanistas e negacionistas (da história, da ciência). Chamá-lo de louco não legitima manicômio, porque o manicômio não é o único modo de lidar com a loucura, muito menos com a sociopatia de um perverso delirante que comete crime contra a humanidade. Além disso, o parecer dado pela junta militar que qualificou o capitão terrorista de 1987 como portador de um distúrbio mental não impediu que milhares de militares o apoiassem e muitos destes participem de seu desgoverno, mesmo preocupados com a repercussão negativa para a imagem das forças armadas. Assim, não há incompatibilidade entre a insanidade do porta-voz da racionalidade necropolitica com esta mesma racionalidade, a não ser que a insanidade se torne disfuncional para operar a politica neoliberal e leve ao descarte do projeto de ditador.
Bolsonaro, mesmo diante de todas as evidências, lançou uma campanha irresponsável para que o brasileiro não deixe de trabalhar e volte a sair de casa. Conclamou o retorno das crianças às aulas e manteve como serviços essenciais cultos religiosos, focos centrais na transmissão da Covid-19 em outros países. Como Hitler, conduzir a própria nação à morte é destinação histórica de um governante eleito pela pulsão de morte que se sobrepôs à potência de vida.
Depor Bolsonaro torna-se, cada vez mais, uma questão de vida ou morte.
Algo como reduzir a quantidade de mortes da epidemia, de mais de um milhão a poucas dezenas de milhares, segundo o Imperial College of London.
Ao mesmo tempo, Maria Lúcia Fattorelli denuncia um dos maiores roubos de dinheiro público, que deveria gerar ajuda ao povo pobre e miserável, com a medida do governo que vai destinar mais de um trilhão aos bancos.
Estamos vivendo, 56 anos depois, um momento em que o presidente eleito defendendo a ditadura militar, e desde o ano passado, promovendo a comemoração do golpe de 64, prepara-se para dar novo golpe decretando Estado de Sítio, após promover o caos social em meio à grave epidemia. Se ele conseguir gerar a desordem pública, terá a justificativa para realizar o seu mais velho sonho e tornar-se ditador. Não sabemos bem qual a força que ele tem pra isso junto a militares das forças armadas e PMs, assim como caminhoneiros e outras categorias com predominância de tendências fascistas. Estejamos alertas, pois o Ministro da Defesa e o Vice-Presidente se unem a outras lideranças militares para celebrarem o golpe militar de 64, no momento em que o Presidente favorece a contaminação epidêmica, enquanto os pobres estão desamparados pelo Estado e começam a realizar saques.
A saída antropofágica dessa grave crise passa pela incorporação de uma virulenta solidariedade, capaz de mobilizar ajuda mútua, reumanizar a sociedade, gerar reação das instituições democráticas ao golpismo bolsonarista, com deposição do desgoverno eleito de forma fraudulenta por meio de fake news e realização de novas eleições o quanto antes. Assim, é fundamental: 1) Suspensão do pagamento dos juros da dívida pública 2) Cancelamento da EC 95 (Teto de gastos) 3) Renda básica universal 4) Taxação de grandes fortunas e maiores rendas. Para investimento em políticas públicas sociais com prioridade para Saúde Pública por meio do SUS. Senão a reação será ao modo Bacurau...
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