A.B.A.P.O.R.U. (Agenciamento Brasileiro Antropofágico da Política de Orientação Revolucionária Utópica). O agenciamento coletivo pensado por Deleuze e Guattari é experimentado no contexto brasileiro ao modo antropofágico de Oswald de Andrade como pensamento articulador de uma política revolucionária que faz da potência crítica e criativa da imaginação utópica um poder de influenciar os rumos das relações de força no jogo estratégico entre os poderes que se exercem na realidade social do país.
quarta-feira, 15 de abril de 2020
NEGACIONISMO, NEOFASCISMO E PANDEMIA (Ivan Maia, Poeta e Professor da UFBA)
Há um comportamento que tem se manifestado na sociedade brasileira, e em geral não é percebido por quem o adota, mas que aparece em múltiplas formas. Tem sido chamado de negacionismo uma postura diante de diferentes contextos existenciais, nos quais ocorre, por parte de indivíduos, grupos ou instituições, uma negação de aspectos da realidade, cuja ocorrência é contestada, ocultada, distorcida, atribuída a outros como invenção fictícia, falseamento ou simplesmente mentira.
Este comportamento tem tido forte influência no campo da política, de modo a gerar decisões relativas a políticas públicas de governos, leis do parlamento e sentenças jurídicas. Sobretudo, tem se manifestado por parte de agentes sociais de tendência reacionária, mas também pode aparecer como posturas adotadas por atores do campo democrático.
Por parte dos indivíduos reacionários, o negacionismo se mostra em vários campos da experiência humana, como uma postura irracional, anti-científica, apolítica, necropolítica, farisaica, fundamentalista, entre outras formas. Este negacionismo reacionário tem aparecido como parte do que tem sido compreendido como Neofascismo, uma nova forma do fascismo que historicamente já assumiu as formas do Fascismo italiano de Mussolini e do Nazismo alemão de Hitler.
Na contemporaneidade, o Neofascismo brasileiro liderado por Bolsonaro manifesta seu negacionismo não apenas negando veracidade às versões científicas sobre evolução biológica, aquecimento global, desmatamento, história da escravidão e da ditadura militar. Como nesses casos, sem fundamentação teórica consistente, o negacionismo bolsonarista chega a colocar em risco a vida de milhões de brasileiros diante da pandemia do coronavírus, negando a necessidade e eficácia da política de saúde pública do distanciamento social, como principal medida preventiva no enfrentamento da epidemia, segundo recomendação da Organização Mundial de Saúde, que pode evitar a morte de mais de um milhão de pessoas, segundo estudo recente da Imperial College, de Londres.
Este negacionismo reacionário contemporâneo, herdeiro daquele que vem negando a humanidade dos povos negros da África e indígenas da América, desde o início da colonização, também se identifica com posições apolíticas, de negação da política, supondo-a mero jogo de interesses escusos, desqualificando toda forma de enfrentamento democrático no jogo de forças políticas nas relações de poder que permeiam a vida em sociedade, enquanto mascara sua necropolítica de produção de mortes, de trabalhadores expostos à contaminação epidêmica, de cidadãos expostos à violência da criminalidade, alimentada pela fome dos que ficam sem renda mínima para sobrevivência, e de parte da população que compõe o grupo de risco (sobretudo idosos), que são expostos à contaminação por falta de distanciamento social.
O caráter necropolítico do negacionismo neofascista brasileiro se apresenta de forma emblemática por meio do presidente irracionalmente mitificado e sua personalidade sociopata, marcada por comportamento agressivo, que incita a violência, o armamentismo, a brutalidade policial, a perseguição política, e discurso paranóico delirante de ameaça de ditadura comunista. Em parte, isso é resultante do ressentimento da elite econômica que deixou de ganhar (para aumentar seus privilégios) recursos destinados por governos progressistas a políticas públicas sociais, após anos de redemocratização que desconstruíram, apenas parcialmente, o autoritarismo da ditadura militar, de onde provem a parcela recalcada da agressividade miliciana neofascista, principal componente da sociopatia bolsonarista.
O negacionismo neofascista brasileiro é parte daquele disseminado no mundo atual, que levou a equívocos de atitudes em relação à epidemia, como o que vitimou o economista Rehman Shukr, ligado ao FMI, que defendia a prioridade da economia sobre a saúde pública, ou o que acometeu o ministro da saúde israelense Yaakov Litzman, o qual contaminou a comunidade religiosa que permaneceu frequentando, e ainda o primeiro ministro inglês Boris Johnson, que havia feito campanha para as pessoas se exporem ao contágio e desenvolverem imunidade, e acabou internado na UTI de um hospital.
Finalmente, é necessário que os democratas permaneçam alertas para o perigo do neofascismo bolsonarista, e não deneguem este movimento político como sendo apenas mais uma força política do jogo democrático. É preciso compreender o caráter niilista, de negação da vida, do negacionismo contemporâneo, no jogo político do discurso, com sua tática de disseminação de fake news, para gerar a coragem trágica de ser realista na compreensão do mundo e afirmar ativamente a vida, aceitando que a realidade seja como vem a ser, sem se resignar ao status quo: absorver antropofagicamente aquilo que na realidade aumenta nossa potência de criar possibilidades de vida na luta política, pela praxis desconstrutiva da necropolítica do capitalismo neoliberal, particularmente em sua conjunção com o neofascismo.
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Excelente análise!
ResponderExcluirO negacionismo é uma porta para o fascismo pelo seu caráter irracional, elitista e violento!
Justamente, meu caro! Grato pelo comentário!
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