A descolonização artística: a rosa-dos-ventos decolonial
No processo de constituição da estética da existência corpoética, busca-se apresentar a descolonização através de perspectivas críticas e criativas, da experiência com a alteridade e consigo mesmo. Daí surgem os quatro sentidos de descolonização a serem investigados: um sentido crítico voltado para a alteridade, um sentido crítico voltado para a relação consigo mesmo, um sentido criativo voltado para a relação consigo mesmo, um sentido criativo voltado para a alteridade
A crítica à colonialidade desenvolvida a partir de uma perspectiva antropofágica parte de uma hermenêutica perspectivista, do ponto de vista do sul global, que genealogicamente interpreta a criatividade das convenções artísticas e dos padrões estéticos hegemônicos na nossa sociedade, de modo a desconstruir as modelizações homogeneizantes, desterritorializando-as, e apropriar-se seletivamente das produções de subjetividade mais singulares que aumentam a vitalidade de nossas criações.
A partir da consideração das histórias das artes desde suas emergências no contexto ocidental, e confrontando essa história com as várias formas de expressão surgidas em outras culturas, sobretudo com as que se desenvolveram desde as culturas dos povos originários da América e da África, com seus diversos modos de composição de objetos e acontecimentos de caráter estético elaborado, podemos compreender a multiplicidade de configurações poiéticas dos processos criativos, avaliando a potência vital singular do agenciamento da criação artística em sentido amplo e profundo.
Das quatro direções sopram ventos decoloniais, configurando uma nova rosa-dos-ventos para a descolonização artística. A rosa-dos-ventos foi o símbolo emblemático das grandes navegações que tornaram possível a invasão e colonização das terras na América e na África. E se, antes, os ventos sopraram de modo a trazerem as caravelas dos invasores-colonizadores, atualmente os ventos sopram de modo a difundir a crítica descolonizadora e novas criações. Eis uma nova rosa dos ventos decolonial:
1) O vento norte traz uma perspectiva crítica de desconstrução daquilo que norteou a arte ocidental, em seu regime de espetacularização da arte desde o teatro grego antigo. O espetáculo foi se configurando como divisão social da experiência estética entre a apresentação das obras dos artistas e a recepção do espectador. O regime de visibilidade espetacular marcou inclusive, desde o início, até mesmo a apresentação musical, com os músicos situados na orquestra, lugar de menor visibilidade, que ajudou a atribuir à música uma importância secundária diante do texto dramático encenado pelos atores. A desconstrução da espetacularização da arte se desenvolveu no próprio contexto ocidental através de uma busca, que se intensificou desde o século XIX, pela união entre arte e vida, que marcou artistas e pensadores como Friedrich Nietzsche, Charles Baudelaire, Antonin Artaud, Isadora Duncan, Anna Halprin, Michel Foucault, Gilles Deleuze e Felix Guattari. Cada um destes autores e autoras apontou para essa possibilidade de modo singular. Por outro lado, no contexto cultural dos povos originários, a arte sempre fez parte da vida sem se dissociar dela, como um modo estético de existência.
A performance corpoética antropofágica busca superar a espetacularização através dos modos performáticos de ritualização do acontecimento artístico, buscando incluir o público presente na apresentação da performance, por meio de procedimentos artísticos que buscam aproximar o público desta, e mobilizar sua participação no processo de carnavalização ao qual se abre o devir antropofágico da performance.
2) O vento oeste sopra na direção da crítica desconstrutiva de nossa territorialização subjetiva, historicamente desenvolvida, nas matrizes culturais greco-romanas e judaico-cristãs da civilização ocidental,visando uma desterritorialização da subjetividade criadora ocidentalizada, em relação aos valores predominantes nas matrizes de referência dessa civilização. O inconsciente colonial-capitalístico (ROLNIK, 2018), que foi estruturado pela produção de subjetividade modelizada segundo o modo hegemônico de semiotização no Ocidente, precisa ser desterritorializado, em seu processo de subjetivação, para que uma heterogênese subjetiva abra possibilidades de linhas de fuga para devires performáticos descolonizadores do corpoema, como ocorre a partir das críticas feministas, antirracistas, em defesa da diversidade sexual e da sustentabilidade ambiental, entre outras.
3) Do sul, sopram os ventos de reapropriação das componentes da produção de subjetividade referenciadas nas tradições provenientes das matrizes dos povos originários indígenas e africanos, submetidos ao processo colonial de dominação pelas potências imperialistas do norte global, e ao neocolonialismo globalitário, do capitalismo neoliberal e sua necropolítica de extermínio dos povos indígenas, quilombolas, periféricos, e demais comunidades e movimentos dissidentes, desviantes, insurgentes frente ao poder econômico e político hegemônicos nas cidades, regiões, nações, em meio a configurações geopolíticas internacionais. As subjetividades ancestrais provenientes dos povos originários da América e da África são reapropriadas por meio de um contato criativo com as tradições preservadas em sua dinâmica histórica viva, recriadas à medida que são transmitidas às novas gerações que se sucedem como protagonistas da renovação dessas tradições. Todo o repertório cultural, das matrizes originárias de nosso processo multicultural contemporâneo de resistência à homogeneização globalitária hegemônica na sociedade atual, é agenciado coletivamente na criação artística da performance corpoética antropofágica que se engaja na descolonização de nosso inconsciente colonial-capitalístico.
4) O vento leste completa a rosa-dos-ventos da descolonização artística, soprando desde a direção do sol nascente, que ilumina o novo dia, a nova era decolonial do tempo histórico em que, enraizadas nas matrizes culturais originárias, as criações artísticas incorporam tudo que pode aumentar sua potência vital de criação de novos meios estéticos de expressão, através de processos antropofágicos (ANDRADE, 1972) de apropriação crítica, seletiva, das formas outras de expressão, as componentes subjetivas de alteridades que produzem diferenças singularizantes. Esse processo heterogenético amplia o repertório para além da mera imitação (mimesis), diversifica as possibilidades criativas, abre caminhos para a inovação estética, por meio de hibridismos, fusões, releituras, conduzindo a uma multiplicidade de modos de expressão que apontam para um autêntico pluralismo cultural, no sentido pensado pelo filósofo africano Paulin Hountondji (1996).
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