terça-feira, 2 de junho de 2020

NÃO CONSIGO RESPIRAR...BASTA! (Ivan Maia, Poeta e Professor da UFBA)

Numa época de epidemia da síndrome respiratória, não foi o coronavírus que sufocou um homem negro norte-americano até a morte, foi o vírus do fascismo racista, pelas mãos de um homem branco. Suas últimas palavras traduzem a dificuldade, para muitos, e a impossibilidade para outros, de respirar no mundo dominado pelo fascismo. Do lado sul da América, centenas de juristas brasileiros lançam manifesto intitulado “Basta!”, pelo fim da “noite de terror que cobre o país”, como ameaça à democracia no Brasil, após o Presidente bradar “Chega!”, revoltado com a liberação do vídeo de sua reunião ministerial pelo Decano da Suprema Corte e com as ações da Polícia Federal, de apreensão de equipamentos usados pela milícia digital conhecida como “Gabinete do Ódio”, que faz campanha em apoio ao Presidente e agressivamente incentiva a ruptura do pacto constitucional, por meio de fechamento do Congresso e do STF, para instauração de uma ditadura militar-miliciana. Bolsonaro então ameaçou usar “as armas da democracia” para impedir uma “ditadura do judiciário”, além de falar em “abuso de autoridade”, e que “as forças armadas estão com o povo”, que “age através de seu Presidente”. Seu filho Eduardo acrescenta depois: “A questão não é se vai ter intervenção, mas quando”. Este mesmo que, meses antes, ameaçou com “novo AI-5”, caso a insurgência chilena contagiasse o Brasil na luta contra o neoliberalismo. Na época, o General Heleno, Ministro da Segurança Presidencial, replicou: “tem de estudar como vai fazer”. Este General, já integrou a equipe do Ministro do Exército, Silvio Frota, militar da linha dura que tentou, na década de 1970 dar golpe no Presidente Geisel, contra o abrandamento do regime em andamento. Heleno foi o General que comandou as forças da ONU no Haiti, que foram responsabilizadas por um massacre de cerca de 70 pessoas em Porto Príncipe, em 2005. Em 2006, foi com uma equipe de militares brasileiros, na condição de palestrante, para a WHINSEC, antiga Escola das Américas, que preparou gerações de militares para atuar com torturas em vários países latino-americanos. Em 2011, passou para a reserva fazendo discurso em defesa do Golpe Militar de 1964, que, em 2019, ele chamou de “contrarevolução”. Considerado o conselheiro militar de Bolsonaro, Heleno iniciou a escalada golpista do governo, em Março de 2020 (no início da epidemia de coronavírus), dizendo “Foda-se!”, quanto à relação com o Congresso que estaria se opondo a iniciativas do poder executivo. Ele sugeriu que o presidente chamasse manifestações contra o Congresso, e estas vêm se repetindo com a participação do Presidente, tendo se direcionado ultimamente também, e principalmente, contra o STF. A encruzilhada em que se encontra a democracia brasileira está no confronto, entre o “Basta!” dos que bradam por democracia, e apoiam o STF, e o “Chega!” do Presidente, incomodado com a exposição de sua equipe ministerial (que conspira contra a democracia, o meio ambiente e os direitos humanos), além de revoltado com as investigações policiais conduzidas pelo Ministro Alexandre Moraes contra seus apoiadores midiáticos difusores de fake news, a milícia digital a quem deve sua vitória na eleição, bancada, em parte, por empresas como Havan e Smart Fit. Do lado fascista, estão os militares do governo (quase 3 mil), as milícias das PMs, os civis bolsonaristas armados, os evangélicos neopentecostais liderados por pastores de grandes igrejas espalhadas pelo mundo, donos de rede de TV, como Edir Macedo e Sílvio Santos, os seguidores de Olavo de Carvalho, e empresários inescrupulosos que tentam impor o retorno ao trabalho de seus empregados, contra as medidas de saúde pública. Do lado da democracia, praticamente todo o STF, a grande imprensa (Globo, Folha, Estadão, Veja e outras), 20 governadores (com destaque para Flávio Dino-MA, Camilo Santana-CE, João Dória-SP), associações como Ordem dos Advogados do Brasil e Associação Brasileira de Imprensa, entre outras, junto com as Centrais Sindicais e as Frentes (Brasil Popular e Povo Sem Medo), partidos de oposição, movimentos sociais, artistas e intelectuais. No meio dessa encruzilhada histórica, alguns estão meio perdidos, buscando uma inviável isenção, em nome de uma “harmonia” entre os poderes (já precária pela disposição golpista do executivo), como os presidentes do Senado e da Câmara, Davi Alcolumbre e Rodrigo Maia, o mais covarde de todos os personagens da política brasileira contemporânea. Com o crescimento da tensão política, tudo dependerá do compromisso expresso pelo General Azevedo, Ministro da Defesa, de que as forças armadas cumprirão sua missão constitucional, pois só os militares legalistas, comprometidos com os valores democráticos constitucionais, poderão fazer frente à escalada autoritária do bolsonarismo, que continua violando os limites institucionais, armando-se para impor sua tirania, enquanto a avaliação do governo piora nas pesquisas de opinião pública e a epidemia alcança seu pico de contaminação. De um lado, a democracia, as leis, a imprensa, a palavra. Do outro, as armas, militares e civis, a ameaça de ditadura, com AI-5, com tortura, a força bruta. Já faz tempo que vem sendo cantado: “o Brazil está matando o Brasil”! Basta! Não consigo respirar...

2 comentários:

  1. Um texto bastante esclarecedor sobre a atual situação do país.
    Parabéns Ivan Maia, por sua lucidez e indignação contra o avanço dessa necropolítica do atual governo federal.

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  2. Valeu poeta! Como disse Drummond em A ROSA DO POVO, "o poeta declina de toda responsabilidade na marcha do mundo capitalista e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas, promete ajudar a destrui-lo."

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