terça-feira, 7 de abril de 2020

Ponto de Encontro - Os corpos para além da necropolítica (Luciana Lucena, artista-pesquisadora PPGAC/UNIRIO)

Antes mesmo de conhecer Seu Gomes, já o avistava da minha janela. Pontualmente às oito da manhã, ele chegava na fruteria da esquina e escolhia as frutas frescas da estação. Trocamos dois dedos de prosa no dia em que foi decretado o Estado de Emergência aqui em Portugal. Desde lá, não o vejo mais passar com sua sacolinha xadrez a tiracolo. Até as gaivotas que costumavam rondar o comércio, agora apontam na direção do isolamento geral. De frente à minha janela, agora mais monótona, lembrei de uma brincadeira de infância: Estamos isolados para não ficarmos doentes ou estamos doentes e, por isso, isolados? Tostines! Nossos corpos reclusos refletem a biopolítica de Estados autoritários que, ao longo do tempo, do acirramento de suas fronteiras e de uma necropolítica perversa definem quem deve morrer e quem deve viver. O cientista político e colunista português, do jornal Folha de São Paulo, João Pereira Coutinho, questionado em entrevista ao podcast Café da manhã: “Como o autoritarismo age numa pandemia”(02/04/2020), sobre o que líderes autoritários precisam para crescer e expandir seus projetos de poder, responde que necessitam de autoridade e de oportunidade. Um exemplo recente é a Hungria, cujo primeiro ministro, Viktor Orban, conseguiu aprovar um estado de emergência sem limite de vigência, com texto que lhe amplia poderes, podendo suspender sessões parlamentares, eleições e até decretar prisão para quem divulgar informações consideradas incorretas pelo governo. Com o pretexto da pandemia, governos ultranacionalistas têm a oportunidade perfeita para legitimar o excesso de controle sobre as liberdades que cidadãos incautos lhes oferecem cheios de confiança. Estou a falar da Europa, porque diz o ditado também português, que “Em terra de sapos, de cócoras com eles”. Quem sabe seja menos doloroso cutucar a ferida dos outros(?) - Dos que estão do outro lado da porta, do outro lado da janela, do outro lado da minha máscara, já escassa na farmácia. Esses, do outro lado da minha pele. O silêncio quarentenal das ruas, permite-me ouvir o panelaço generalizado que se opõe à fala criminosa dirigida à população, para que siga-se a vida, já que “brasileiro deveria ser estudado por sua capacidade de pular no esgoto sem que nada lhe aconteça”. No caso do governo brasileiro, seguindo a mesma linha dos governos americano ou britânico, quando são feitas alegações de que o trabalho e a economia do país não podem parar, o que se percebe não é uma simples irresponsabilidade irresignada, mas a escolha pela morte. Não é legítimo que um governante opte entre a economia ou a saúde do seu povo. Esta divisão existe enquanto possíveis pastas administrativas, não como opções a serem descartadas. Trata-se de direitos sociais, regidos pelo Princípio da Dignidade da Pessoa Humana, sendo, portanto, dever de um chefe de Estado preservá-los igualmente. O isolamento é um convite para percebermos as formas de poder, de modo que não inviabilizem nossos corpos. Em artigo recente, o filósofo espanhol Paul B. Preciado (2020), analisando a situação contemporânea das biopolíticas a partir do Covid-19, sugere que “El sujeto del technopatriarcado neoliberal que la covid-19 fabrica no tiene piel, es intocable, no tiene manos. (...) No tiene lábios, no tiene lengua”. Ou administramos nossas distâncias-proximidades ou delegamos, cada vez mais, o comando dos nossos corpos a governos autoritários, que só precisam de oportunidade para transformar estado de exceção em normalidade. Conviver, do latim convivere, significa adaptar-se a uma nova situação. Então, na condição de artista das artes da presença, penso neste isolamento enquanto lugar de relação com este outro, esconjurado do meu país, do meu corpo, do meu quadrado. Este outro, isolado do outro lado da cidade, do mapa, do mundo. Se no pós-guerra, o modelo cotidiano, citadino, amparado na cultura predominantemente urbana, cria uma arte relacional, não é porque estamos isolados que isto se perde. Continuamos neste estado de relação. Fomos isolados pela nossa patologia coletiva. E parafraseando Bourriaud (2009): “...a arte sempre foi relacional, ou seja, fator de socialidade e fundadora do diálogo”. Então, sem querer romantizar a falta de recursos, achando que se instaura agora uma nova era em que artistas produzirão as grandes obras primas do confinamento, sigamos invocando o diálogo com as fronteiras de todos os nossos corpos reclusos. Quando me despedi de Seu Gomes, ele disse ter uma vontade enorme de viajar, de conhecer o Brasil em especial, mas que raramente ia além da esquina da própria casa.

Um comentário:

  1. Muito interessante. Bem.escrito. Atualizado e contextualizado. O Brasil da Necropolitica da politica supranacional tem um governante esquizofrênico. Não distingue fantasia da relaidade.

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