A.B.A.P.O.R.U. (Agenciamento Brasileiro Antropofágico da Política de Orientação Revolucionária Utópica). O agenciamento coletivo pensado por Deleuze e Guattari é experimentado no contexto brasileiro ao modo antropofágico de Oswald de Andrade como pensamento articulador de uma política revolucionária que faz da potência crítica e criativa da imaginação utópica um poder de influenciar os rumos das relações de força no jogo estratégico entre os poderes que se exercem na realidade social do país.
quarta-feira, 13 de maio de 2020
A GUERRA CONTRA O INIMIGO INVISÍVEL (Alan Sampaio, Filósofo, Professor da UNEB)
– Inimigo invisível, o caralho! – Que guerra, que nada! – Ladrões! A cada dia roubam-nos nosso sonho de liberdade. – Dizem hoje os pensadores mais desbocados.
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I.
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Imaginem que alguém lhes diz que A GRAVIDADE É NOSSA MAIOR INIMIGA, hoje e sempre – afinal, o número incomensurável de mortes e danos aos vivos que ela provoca permite nomeá-la de A PANDEMIA RENITENTE – e, então, lhes dissesse que precisamos e devemos combatê-la, e que estão na iminência de encontrar a vacina, enquanto uma nova forma de vida planetária é administrada. Para que possam imaginar, eis um diálogo do futuro entre o mediador e uma discente em um chat de aula remota de Filosofia:
– Daí, desde 2023, só nos locomovemos com veículos que desafiam a gravidade, enquanto vivemos normalmente em nossas células de antigravidade, acolchoadas, consumindo enlatados, sem contato direto com a rua ou com outras pessoas sem autorização prévia e para fins definidos. As ruas estão sujeitas à gravidade...
– Mas só alguns podem circular pela cidad...
– Claro! Você e seus poréns... Se combater à pestilência da gravidade, letal para nós, é o nosso objetivo, devemos restringir a circulação, vigiar a todos. Quem poderia sonhar com um avanço do bem assim?
– Bentham?! O utilitarismo inglês?!
– Verdade. Uma sociedade encarcerada, na qual a censura ao desvio da norma é observada por todos, e, como consequência, de modo culpado pelo infrator. Uma só vontade! Ah! Quando se conquista uma segurança dessa ordem, quem se atreveria a querer, a pensar diferente? Só a guerra constante contra o mal, e o mal supremo, a gravidade, importa!
– Ah, ’tá. O povo atomizado em corpos confinados em células de 5 a 10 m² e de alma criada pelos teleprogramas de controle do pensamento... Acho que já vi esse filme em 1984.
– Vocês e seus filmes velhos... Ninguém era livre antes.
– Mas é um livro... Só falta o senhor me dizer que acredita que a Terra foi mesmo invadida por aliens há cinco anos, quando as medidas de segurança...
– Claro! Você tem dúvidas? Nós vimos os vídeos.
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Bem, queridos, queridas, se escutassem tal anedota, o que diriam? Responderiam como o filósofo clamando por um pouco de possível, diriam como a filósofa que, se isso acontecer, arriscamos a perder todo o possível algum dia criado, ou diriam, queridos, amém!?
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II.
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Já dizemos “amém”, não dizemos?!
Há uma segunda parte da história. Em 2029, os professores foram completamente substituídos por mediadores, com inscrições militares. Enquanto o mediador da disciplina de Filosofia Moral e Cívica e uma discente discutem sobre liberdade, mobilidade e transcendentalidade da representação, outro aluno envia por escrito a seguinte mensagem:
Tenho o otimismo de um pássaro em uma gaiola que enxerga nos viveiros avistados o poder de abrir as asas em bandos, e que com asas abertas, ele poderá finalmente voar. Um pássaro pequeno que sonha com o sonho de liberdade. Então começa a afiar sua língua e do bico faz uma serra, e logo o canto dele repete a oração angélica: “a liberdade é uma luta constante”. E quando canta, quebrado, confuso, o sonho no qual sonharia com a liberdade, elegantemente eleva seu bico.
– Que absurdo é esse? De quem é isso? Quem escreveu?
– Encontrei como chamada do perfil da colega... Achei suspeito, então postei aqui. Fiz mal?
– Não, de modo nenhum, ao contrário, pedirei o aumento de teu conceito por ato ético antiterrorista. As palavras escritas são mais do que suspeitas, são pesadas...
– Não, por favor! Por favor! Não reporte à Secretaria de Correção. Já estou apag... Pronto. Apaguei. Viu?! O conto nem é meu...
– Não sei se podemos chamar aquilo de conto. A senhora faz parte do MCA?
– Não, não, não, senhor! Não, Senhor! De onde tirou essa ideia? O que eu fiz de errado?
– O MCA, Movimento Contra Antigravidade, é um grupo terrorista que coloca a nossa existência planetária em risco. Seus membros moram em áreas com escadas... Imaginem o absurdo de seu apego às formas primitivas de vida: es-ca-das... Como podem viver em habitações e ruas tão selvagens?
– Mas eu moro em uma célula em New City XXIII. Não tem porquê baixar meu conceito...
– Eles fazem festas de corpo presente. Pulam e dançam sem nenhuma segurança, tomados pela irracionalidade do corpo. O frenesi é contagiante. Eles ficam viciados. São a ameaça, a própria doença, a escória da humanidade.
– O que fiz de errado, senhor mediador?
– Infelizmente, não temos como determinar o alcance de sua mensagem e a fonte. Se só replica a mensagem ou se é mentora da ideia retrograda, só uma investigação VIP determinará...
– O senhor vai chamar a Vigilância das Ideias Pesadas pra isso? Não basta a Secretaria de Correção? – Uma campainha se escuta, Din-don. – Mediador? Colegas? Por Fav... – A súplica e o pranto não são escutados pelos membros do chat. No lugar de sua imagem, por um minuto, eles veem o desenho de um pássaro de múltiplas cabeças dentro de uma gaiola caída sobre arames farpados pintados de verde. Depois, até o seu nome é apagado do chat e os perfis, das redes sociais.
Enquanto o mediador continua explicando o papel da Secretaria de Correção na definição dos limites do discurso e o da Vigilância da Ideias Pesadas, a VIP da Polícia do Mundo, no combate ao Movimento Contra Antigravidade, um holograma aparece à jovem ex-discente e lhe informa de seus direitos e das sanções às quais está, desde então, submetida por tempo indeterminado, até quando durem as investigações. São medidas que vão da suspensão de acesso à internet até a revogação de sua saída semanal para tomar sol.
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Meus queridos, minhas queridas, por que se espantam com a ficção? Por que lhes parece surreal ou por que demasiado real?
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Com certeza, demasiado real! Parabéns, Alan!
ResponderExcluirMuito sociedade distópica cyberpunk, muito bom alan, muito engraçado, passei mal com vigilância das ideias pesadas e eu acho q ficaria massa como hq.
ResponderExcluirOxente! Um filósofo? Ainda existe essa espécie? E esse são os piores: tem asa que voa; bico que bica e garras afiadas. Cuidado!
ResponderExcluir...
Por mais vôos aos otimistas pássaros das gaiolas.
Quantas idéias e pensamentos instigantes.A Ficção me parece real ao extremo.
ResponderExcluirMovimento Contra Antigravidade, genial. Assustador mas é demasiado real.
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