A.B.A.P.O.R.U. (Agenciamento Brasileiro Antropofágico da Política de Orientação Revolucionária Utópica). O agenciamento coletivo pensado por Deleuze e Guattari é experimentado no contexto brasileiro ao modo antropofágico de Oswald de Andrade como pensamento articulador de uma política revolucionária que faz da potência crítica e criativa da imaginação utópica um poder de influenciar os rumos das relações de força no jogo estratégico entre os poderes que se exercem na realidade social do país.
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sexta-feira, 22 de maio de 2020
O meu chuveiro e a curva ascendente do niilismo (Jarlee Salviano, Professor de Filosofia - UFBA)
Meu chuveiro deu sinais de falência. Fui apressado à compra de um novo, pois há um tempo me acompanha uma paranoia que ganhou voz num dito de certo político, segundo o qual nós “tomamos banho numa cadeira elétrica”. Se bem que o infernal clima baiano exija pouco do acionamento desta máquina dantesca. Diante do balcão, à espera do funcionário (que se enfiou entre prateleiras, com sua máscara mal posta, na busca pelo aparelho) ladearam-me o poeta argentino Jorge Luis Borges e o filósofo alemão Nietzsche, que sussurraram coisas sobre seus livros. Para ser mais preciso cada um me falou de um escrito que, segundo eles, aconselhariam a leitura em tempos de isolamento (ou desolamento): O imortal e Gaia Ciência. Há alguns dias o chuveiro novo está ali num canto à espera. Talvez já o tivesse instalado, não fossem os ecos daqueles sussurros ao pé do ouvido lá na empoeirada loja.
Nesta atmosfera apocalíptica em que fomos mergulhados, a curva de meu niilismo congênito cresce à proporção da cadavérica curva do vírus. Não, minto, é pior! A linha da curva aí já subiu reta e agora volta pra esquerda, está virando uma elipse. Dilui cada dia mais toda racionalidade dos gestos. “Tanto faz!” sapecou o cínico Diógenes ao imperador Alexandre diante de sua ameaça de morte. “Qual a diferença entre estar vivo ou morto?” vociferou o estouvado vagabundo de Atenas. Tanto faz isto ou aquilo. Tanto faz hoje ou amanhã. Tanto faz desse jeito ou de outro. Tanto faz...
E se um tal niilismo corrosivo fosse o efeito inevitável da pandemia? E se toda estabilidade parmenídica afogasse no rio heraclitiano? Que aconteceria, diria Borges, se a imortalidade fosse um atributo da raça humana? O infeliz da cidadela dos imortais que despenca em um fosso profundo poderia ficar à espera do socorro por décadas (como ficou o personagem de seu conto), afinal, tanto faz... Resgatá-lo hoje ou amanhã dá no mesmo, pois é imortal, nenhuma necessidade torna urgente o auxílio. Que restaria das tábuas de valores, tão zelosamente esculpidas? Que faríamos, diria agora o alemão, se um demônio te revelasse a terrível sentença do “eterno retorno”? Que não há um “para quê” das coisas, um caminho linear rumo a... Eterno ciclo repetitivo do mesmo. Sofrimento, morte, doença, finitude, imperfeição, injustiça... Tudo de novo! Na mesma ordem e proporção.
Eu olho meu chuveiro novo ali no canto com a mesma mudez de pensamento e sentimento com que ele me olha. Cada vez mais esta náusea sartreana contamina minha relação com as coisas.
Que tipo de criatura sairá no final desta experiência pandêmica terrível? Quão irreversível é a metamorfose física e mental por que passamos? Leio (na verdade, hoje em dia mais ouvimos que lemos) os pensantes da vez falando do advento da solidariedade, da resiliência... Oi? Perdão, é que caiu na mesa minha orelha esquerda. E parece que está caindo meu nariz... Tá bem, tá bem, eu explico: os de meu tempo, que assistiam ao filme A Mosca na sessão da tarde, sabem do que estou falando. A mosca em que o cientista se transforma aos poucos é muito mais apavorante que o inseto do Kafka.
Agora sinto como real uma imagem de ficção que sempre me angustiou muito. É uma ideia presente numa película infantil, a animação Wall-e. É aquele filme do robozinho lixeiro que permaneceu no planeta Terra esvaziado de toda vida orgânica depois da catástrofe orquestrada pela estupidez humana que devastou sua própria casa. Patético robô, continua incansavelmente sua inútil tarefa de limpeza de um astro que é só destroços e lixo. Alguns indivíduos restaram, numa imensa nave espacial que zarpou do planeta com a missão de retornar quando os robôs vigilantes notassem sinal de regeneração. Enquanto isto, depois de séculos, a grande sociedade enclausurada na nave estruturou-se a partir de hábitos nada saudáveis. Presos em suas cadeiras robotizadas, que os provêm de todas as necessidades fisiológicas, desaprendem a andar, a dançar, a exercitar-se. Tornaram-se gravemente obesos. Ali não se olham mais diretamente, não se ouvem, não se tocam.
Aqui no mundo (ir)real, seguimos também presos. Em processo de caótica transformação (no que diabos vai resultar, não se sabe).
Outra angústia que a ficção proporciona neste sentido está no filme Vanilla Sky. Conta a estória do sujeito que firma o contrato com uma empresa que oferece ao contratante uma hibernação (de um corpo que padece, no caso, a deformação física devido a um acidente de carro) e a ilusão (introjetada eletronicamente no cérebro) de uma vida fulgurante previamente confeccionada. A trama atira-nos numa tensão constante entre realidade e sonho. A cena inicial do filme eu quase vivencio todos os dias em que olho pela minha janela: o ator em seu possante automóvel que ganha as ruas da metrópole completamente desertas, como num asfixiante pesadelo. Algo como a onírica imagem do quadro O grito do Edvard Munch.
Claro, cá embaixo de minha janela há vivas (por enquanto) almas, não é tão desolador como no filme. Mas uma desertificação avança rápido sem dar sinais de onde vai parar... Ela é interna! Areias que engolem toda vegetação, todo bioma psíquico. Se vai haver (e como será) a regeneração, ninguém sabe. Só o tempo dirá.
Que dia é hoje mesmo?
Texto muito bom! Bem escrito e cheio de referências que dão vontade de percorē-las para aliviar a angústia do isolamento.
ResponderExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirFui às lágrimas. Não consigo fazer um comentário sobre. Não superei ainda.
ResponderExcluirLindas pernas...
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