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quarta-feira, 20 de maio de 2020

VOZES DO POÇO (Fábio Nogueira - Professor da UNEB e Doutor em Sociologia (USP)

Texto inspirado no filme espanhol o Poço (2020), de Galder Gaztelu-Urrutia. _______ Estamos nos últimos andares do poço. Ele é profundo e os restos do banquete não chegam mais até nós. Vivemos em uma sociedade canibalizada em que nossa única opção é devorar a carne de nosso parceiro de cela. Cada nível do poço é uma prisão. Uma prisão sem grades, mas conveniente segregada entre os que nada têm e os que podem usufruir do pouco que cai da mesa dos níveis dominantes. Eventualmente cagam em nossas cabeças e alguns se jogam para a morte. Escutamos os gritos de dor atravessando a negrura da noite. A vida no poço é uma noite eterna. Aqui toda saída é individual, o que prevalece é o salve-se quem puder. Mas quem construiu o poço? Porque fomos colocados aqui? A quem servimos? Há os que se apegam aos livros. Todos os livros no poço são sagrados. Todos eles falam de um mundo que não existe, mas não ensinam a lutar contra a angústia do poço. Com que forças golpear as paredes espessas, a ignorância e a barbárie? Não podemos cantar? Mas será que alguém nos escuta? Nos primeiros dias preferi o silêncio. Amargar minhas dores calado para que elas silenciassem com o tempo. Mas elas não silenciam. Elas ficam grudadas ao meu peito, rasgando minha carne, como os dentes do meu companheiro de cela que quer me devorar. Aqui não há nem ratos que eu possa comer. Escrevo esta mensagem sem esperança. Aliás a esperança é a primeira coisa que morre quando estamos dentro do poço. Não a última. O que prevalece é o medo e o desespero. Eles nos guiam todo o tempo. Quanto tempo isso vai durar? Vai durar o tempo de nossa desesperança. Não precisamos de esperança, mas de algo que quebre essas paredes e deixe a luz entrar; de comida em nossas mesas, de um abrigo e de quem ouça nossas canções. Aqui todo livro é perigoso pois fala de coisas que não podemos ter, mas desejamos. Desejamos ser livres. Só penso em como sair daqui. Mas isso depende do meu colega de cela que só espera eu dormir para me devorar. Será que só quando chegarmos ao fundo do poço vamos começar a entender as coisas? Não há mais luz aqui dentro e o ar sufoca. Não consigo mais dormir.

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